23 de janeiro de 2014

2 ou 3 coisas que sei sobre ela (filme)

O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver o filme do Godard...


A citação acima era a única referência que eu tinha sobre Gordard. (Embora eu sempre diga nas rodinhas cults que já vi Je vous salue, Marie, claro)

#diva #paris #nouvellevague
Pois então, seguindo a lista dos tantos filmes pra ver antes de morrer, assisti esse. Duas ou três coisas que eu sei dela é um filme sobre os limites da linguagem. Para falar sobre Paris, ou sobre a linda Juliette Janson, ou sobre o absurdo de abafar com propaganda e consumo os gritos que ecoavam da guerra no Vietnam, ou sobre a ressignificação do espaço urbano em tempos capitalistas e homogeneizantes, Godard precisa da linguagem, esse conjunto de símbolos, imagens, sons e palavras que tornam compreensível o pensamento humano. Só assim ele pode dar significado às coisas - e, dando-lhes significado, faz com que elas existam de fato: o que não pode ser nomeado não existe.
Assim, sua luta é a de conseguir fazer com que a linguagem - com seus limites - traduza e exteriorize sua consciência. O filme é ele todo essa tentativa, e a sua estrela é esse processo: as possibilidades e os impedimentos da linguagem, mostrados em quadros, fragmentos que dão a ver uma estrutura maior, é a linguagem como experiência e reflexão. 

O filme não tem história porque experimenta uma maneira de contá-las, as histórias. É um pré-filme, aberto, em construção. Entretanto, nesses fragmentos - duas ou três coisas, conhecemos a Paris e a dona de casa que se prostituem para manter o seu padrão de consumo suburbano de classe média, inflado pelos produtos novos que todos os dias chegam dos Estados Unidos. Vemos o aparente luxo, a modernidade superficial que brilha para velar o indizível, o irrepresentável: a guerra.

Acho que é um filme essencial pra quem se interessa por linguagem e semiótica. Pra quem não curte essas drogas mais pesadas, vale a pena pelos figurinos e pelos flashes glamourosos e modernosos da Paris dos anos 60. Quem quer saber mais fun facts sobre Godard, nouvelle vague e esses aspectos extra-obra, google it

#novinhos #work 
(Procuro fazer as resenhas a partir de reflexões que a própria obra me inspira - se eu preciso do google pra entender minimamente do que uma obra fala, ela falhou como obra pra mim, e eu falhei como audiência pra ela, não fomos feitas uma pra outra, sorry. Nesse sentido, confesso que meu orgulho pessoal foi ter entendido a referência de Godard a Bouvard e Pecuchet: uma estrelinha dourada a mais na minha carteirinha de cult que pega todas as referências, yeah!)



Além disso, pra quem quiser citar o filme sem tê-lo visto de verdade (acontece nas melhores famílias), fica a frase a linguagem é a casa onde o homem habita, que Godard estetizou a partir de uma formulação de Heidegger (essa referência eu tive que googlar) e a sensacional E se você não conseguir LSD, compre uma TV a cores.

18 de janeiro de 2014

12 homens e uma sentença (filmes)

Como uma das resoluções de ano-novo tenho o propósito de assistir um filme por dia em 2014 - como agora tenho tempo de sobra, não tenho desculpa pra não assistir, finalmente, aqueles filmes que eu sempre digo que já vi dez vezes quando quero parecer cult.

Sem saber bem como escolher os filmes, resolvi recorrer a uma dessas listas "tantos filmes pra ver antes de morrer". Ainda que a seleção me pareça um pouco arbitrária, é um começo concreto - e evita que minha resolução seja procrastinada.

Spoiler alert: minhas resenhas podem, eventualmente, trazer comentários sobre o fim das histórias, porque acho que ver o que quer que seja tendo como único interesse saber o final é um tanto quanto imaturo e superficial. Já sabemos todos como a história mais importante de todas - a nossa própria - termina, e nem por isso viver se torna menos interessante, né? Então, com filmes e livros é a mesma coisa.

Seguindo, então, essa lista, comecei por assistir* o filme 12 homens e uma sentença (12 Angry Men). A versão canonizada, must see, é a original, de 1957, mas eu, herege que sou, assisti as duas versões e preferi o remake, de 1997.

Como o título no Brasil deixa claro (em Portugal a tradução foi mais [?] fiel: 12 homens em fúria), um júri formado por doze homens tem a tarefa de decidir se um jovem porto-riquenho acusado de ter matado a facadas o próprio pai é culpado ou não. A decisão do júri - composto por representantes da sociedade civil americana aleatoriamente escolhidos - deve ser unânime, e dela não cabe recurso. 

Esses homens são colocados numa sala - praticamente a única locação do filme - onde deverão discutir até chegar a um veredito. Numa votação preliminar, onze votos indicam o réu como culpado, e apenas um considera que não há provas suficientemente irrefutáveis da autoria do crime. 

O júri é, então, obrigado a discutir novamente todas as evidências do caso, até que a unanimidade seja alcançada. E, na hora e meia de discussão que se segue, assisti um texto brilhante sobre racismo, preconceito, intolerância e direitos humanos. 

Sim, digo que assisti um texto porque, nas duas versões, é ele que importa. Sem efeitos especiais e sem locações deslumbrantes, é o texto que faz desses dois filmes imperdíveis. A direção e a atuação importam na medida em que privilegiam o texto - o calor da sala do júri realça a tensão do que está sendo discutido ali - a sentença de morte de um ser humano; os movimentos da câmera privilegiam a melhor compreensão do texto, não há excessos, há apenas a eloquência do texto, a principal estrela nos dois filmes.

Na versão de 57, os representantes da sociedade civil americana são todos homens brancos. Identificados pelo seu número - de 1 a 12, breves diálogos revelam que entre eles  há comerciantes, profissionais liberais, empregados da burocracia, um imigrante naturalizado. O homem que coloca em dúvida, sozinho, a culpa do réu é vivido por Henry Fonda, cujos olhos tristes eu não gosto. Mas não é só por isso que prefiro a versão de 97. Quarenta anos depois da primeira versão, entre os novos doze representantes da sociedade civil americana agora há negros - e colocar um deles no papel do jurado que faz o discurso mais francamente racista e xenófobo de todos foi uma jogada sensacional.
Essa versão, por mais próxima e por atualizar de maneira eficiente os conflitos presentes no primeiro filme, conversa mais comigo, e é por isso que gosto mais dela.

Um a um, os jurados são convencidos, por meio do debate, de que as provas apresentadas no tribunal não são suficientemente definitivas para que o jovem réu seja considerado culpado. Não se trata de julgá-lo positivamente inocente, trata-se de não se poder dizer, com absoluta certeza, que ele é culpado. Pode ser, e pode não ser - e essa dúvida, de acordo com a letra da lei, é suficiente para que ele continue vivo - já que a condenação implicaria sua sentença de morte.

a melhor cena da versão original:
o discurso honestamente xenófobo
 que exige dos outros membros do júri
uma tomada de posição
A exposição dos argumentos que tomam por irrefutável a culpa do jovem revela um discurso assombrosamente preconceituoso e desgraçadamente atual: é culpado porque deve ser culpado, porque nada indica que seja inocente, porque nasceu num cortiço - produtor de bandidos por excelência, porque essa gente é criada pra ser violenta, porque é da natureza deles roubar e matar, porque não se pode esperar nada de diferente desse tipinho. (acho mesmo que li todos esses argumentos ontem, nos comentários de uma notícia qualquer que envolvesse negros ou pobres no Brasil - supondo que não sejam sinônimos). 

O gesto revolucionário do homem que se nega a decidir tão sumariamente a sorte de outro é o de elevar esse outro ao status de um igual - é a empatia de colocar-se no lugar desse outro, de imaginar-se a si mesmo réu, imigrante, pobre, indefeso - e a partir daí dedicar seu tempo e seu esforço a discutir se a culpa presumida pode ser considerada culpa materialmente comprovada.

Esse texto me remeteu imediatamente aos nossos julgamentos públicos e midiáticos, em que a culpa presumida é mais do que suficiente para que alguém tenha a honra manchada, a vida devassada, a privacidade invadida. Nomeadamente, casos como os da menina Isabela Nardoni e do Mensalão me vêm à mente - casos cujo julgamento foi pro-forma, porque a condenação da opinião pública clamava pela execução sumária da reputação dos julgados tão logo os casos tornaram-se conhecidos.

Versão de 97,
minha preferida e a que eu indico
Me pergunto se eu teria a coragem de ser o homem que levanta a dúvida, que respeita o princípio democrático da presumibilidade da inocência de quem quer que seja, correndo o risco de ser eu mesma rotulada como advogada do diabo, como cupincha de criminosos, como cúmplice de crimes hediondos. Quero ter essa coragem, porque sendo eu o réu - e nada me garante que eu nunca venha a sê-lo, gostaria que alguém levantasse essa dúvida por mim.


Se o filme tivesse que ser refilmado hoje, seria impossível não colocar entre os representantes da sociedade civil americana também mulheres - o que daria um novo fôlego pra esse mesmo texto que, encenado há quarenta anos, continua sendo revolucionário, forte e necessário. 

Bom, menos um filme na lista dos que eu sempre digo que vi e nunca tinha visto de verdade! Faltam agora 364 filmes para cumprir a meta do ano. Não vou resenhar todos, porque resenho só as coisas de que gosto. Aceito indicações de mais filmes, e, para o blog, aceito - e quero! - resenhas feitas por vocês, do que quer que seja :)

___________
* uso o verbo "assistir" como transitivo direto, porque o contexto é suficiente para a perfeita compreensão do sentido do verbo por qualquer falante nativo de português - tenho certeza que não ocorre a ninguém que eu vá "ajudar" o filme, né?

16 de janeiro de 2014

A morte de Ivan Ilitch - livro

Ivan Ilitch sabia que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.

Imagine um homem que passou a vida a buscar momentos e situações confortáveis, que não apresentassem perigos ou contratempos, que fossem idealmente adequadas à sua noção de conforto e estabilidade. Um homem que sempre enxergou a si próprio como especial e único, merecedor de todo o bem-estar do mundo que lhe caísse no colo, que pudesse obter com o mínimo de esforço - ou ao menos sem que fossem necessários grandes investimentos que pusessem em risco a segurança de seu modo de viver, o conforto de suas relações, a superficialidade do verniz com que cobria sua existência.

Imagine que esse homem, que jamais lutou por nada, mas achou-se naturalmente merecedor de tudo, descobre que é mortal no momento em que começa a morrer.

#descanso #profeta #susse
#outdoor #façaamornãofaçabarba
Essa é a história de "A morte de Ivan Ilitch", romance publicado pelo russo Lev Tosltoi, em 1886. A grande surpresa dessa leitura - indicada pra mim pelo professor Paulo Bezerra no dia da defesa da minha dissertação de mestrado - foi perceber que algo que é comumente é identificado como um fenômeno ultra-hiper-pós-moderno, único e específico da nossa época, é tão antigo quanto a noção de que o ideal de uma vida satisfatória - e talvez até plena - é ter o máximo possível de conforto e comodidade.

Ivan Ilitch morre lentamente, tão lentamente quanto o tempo que precisa para perceber que sua vida confortável e sem riscos foi, afinal, um grande desperdício de oxigênio - e que aquilo a que chamava "viver" não passou de uma sombra, um jogo mal jogado de aparências e superficialidade.

#work #gênio #newbook
#lidecomisso,Dosto!
O título do livro não ilude o leitor sobre o desfecho da história - o que importa, então, é saber apreciar com fascínio o caminho magistralmente desenhado pelo autor. Tolstói dá a ver a agonia do personagem que se debate entre vãs esperanças e um insistente apego àquilo que chamava de Verdade. Ivan Ilitch não pode morrer até que tenha deixado de insistir no que chamava de vida - antes de morrer - e libertar-se finalmente da dor - Ivan Ilitch precisa desistir de viver, para então, viver pela primeira e derradeira vez.

Recomendo a leitura - que é rápida, comovente e intensa - a todos que desconfiam que o que chamam de vida - ainda mais se for uma vida satisfatória e confortável - não é bem vida, mas qualquer outra coisa feita de plástico ou de borracha ou de bits, com sabor e aroma artificial de morango ou tutti-frutti, vendida a prestação numa vitrine brilhante, por uma funcionária sorridente de uma marca multinacional. 

A morte de Ivan Ilitch é a morte - a agonia - de todos os que morrem sem nunca ter vivido - um fenômeno tão antigo quanto a noção de que a vida ideal é confortável, tão atual e presente quanto anúncios que vendem vidas de 60 polegadas, tão doloroso e cruel como descobrir a inutilidade de tudo o que se viveu no momento em que se está morrendo.

13 de novembro de 2013

José e Pilar - documentário e livro

José e Pilar é um documentário de Miguel Gonçalves Mendes, português, numa produção brasileira, espanhola e portuguesa. Durante 2007 e 2008, a equipe do documentário acompanhou a rotina de José Saramago e Pilar Del Rio, e a partir do material coletado e das entrevistas, Mendes contou uma bela história de amor, companheirismo e compromisso com o trabalho por um ideal.


Depois do sucesso do filme, foi lançado o livro José e Pilar - conversas inéditas

Eu estava cheia de ideias pra essa resenha, mas acabei de reler o Prefácio ao livro escrito por Valter Hugo Mãe, e, bem, o homem escreve bonito. Deixemos que ele fale.

DIÁLOGOS

A expressão de José Saramago teve sempre que ver com a oportunidade do homem comum. A sua voz, tão aparentemente simples como sábia, aspirou sempre à universalidade e o que mais fez foi revelar. 
[...]
O que o trabalho de Miguel Gonçalves Mendes tem representado para o tesouro do testemunho de Saramago é de valor inestimável. É o melhor dos legados para todos quanto vivem e viverão, permitidos que ficam para o acesso à intimidade com o grande mestre, ou, por outras palavras, para o acesso a um diálogo eminentemente desmascarado com o grande mestre. Mas o grande mestre nunca estaria completo nesta sua dimensão mais pessoal sem a companhia de Pilar del Río, tão distinta quanto já complementar do escritor.
Em certo sentido, e porque talvez o grande patrimônio de José Saramago no que respeita às suas ideias se estendeu por tantos livros e infinitas entrevistas, é em Pilar del Río que este volume encontra o seu mais raro documento. A par de tantas declarações e explicitações de Saramago, é o retrato de Pilar que adquire uma força impressionante, força que creio já não surpreender ninguém, e que creio estar também na base da grande comoção que tem criado o documentário José e Pilar e que agora, com este livro, se adensa. Pilar del Río é, sem dúvida, uma das mais imperdíveis mulheres dos nossos dias. De opiniões rotundas e sensibilidade austera, é uma mulher de inteligência quase assustadora, reclamando para si a liberdade intelectual que, por contínuo preconceito, muito se deixa reservada para os homens. Eu arriscaria dizer que este livro é a oportunidade, nossa, a dos leitores, de encontrar Pilar e, por isso, completar Saramago. É a grande partilha com ela que permite entender melhor o universo do escritor, o espaço afetivo em que se movia o incondicional da construção familiar em que se viu protegido, ou, como se deve dizer, onde se viu amado.
Miguel Gonçalves Mendes talvez não o soubesse quando a isso se propôs, mas agora é cristalino que o seu trabalho, assente na sua persistência simpática, oferece ao mundo um recurso de tão grandiosa importância. Uma importância até emocional, que comove, por nos permitir seguir com o mundo como se Saramago estivesse ainda vivo. Claro que o seu discurso está vivo e quem somos ainda urge pela utopia humanista que tinha para nós. O mundo vai precisar de José Saramago por muito e muito tempo. Desconfio que para sempre. Este livro é uma oferta generosa para a satisfação dessa necessidade.

Perguntam a Pilar "É difícil ser presidenta da fundação (José Saramago)?" e ela responde "é difícil ser mineiro". 

E pronto. E é isso. Pilar é uma mulher privilegiada (porque educada, porque europeia, porque branca, porque famosa, rica, influente) que sabe muito bem o que deve a esses privilégios: trabalho, energia, compromisso. Foi com essa consciência que trabalhou com e por José, a despeito dos murmúrios de que ele precisava descansar. Essa consciência é exatamente a antítese do pensamento classe-média-sofrista e é por isso que, para nós, bunda-moles mimimizentos que somos, soa tão radical ouvir uma mulher que não se deixa sentir-se cansada ou triste. Mas isso é fantástico, porque é disso que o mundo precisa: de gente que possa trabalhar por mundo melhor e que, de fato, trabalhe por um mundo melhor. 

A história de José e Pilar é um exemplo (meu exemplo) de que amor nada tem a ver com dependência ou com anular-se para que o outro apareça. Amor é companheirismo, não concorrência.
Pilar é jornalista, escritora e presidentA de uma das mais recentes e, já, importantes fundações culturais de Portugal, e dedicou seu trabalho a ampliar o alcance do trabalho de Saramago porque acreditava pessoalmente na grandeza e na importância de sua obra, e não somente porque José era seu marido. 
José é o grande Saramago, primeiro e único Nobel de literatura em língua portuguesa, exilado e censurado em seu país, acolhido pela Espanha e por Pilar, em Lanzarote, onde não deixou de trabalhar, onde trabalhou até que a vida cessasse.

Amor, força, ternura, compromisso, liberdade, coragem, afeto. A história de José e Pilar tem muito a nos dizer sobre nossas próprias histórias.

Assista o filme aqui. Escute a trilha sonora aqui. Leia trechos do livro aqui.

5 de novembro de 2013

Cultura e Estudos Culturais

Dia desses, publiquei um post revoltadinho no facebook. Como texto revoltadinho não leva ninguém a lugar nenhum, aqui vai um comentário mais elaborado sobre uma questão que considero importante.

A proposta desta disciplina "Cultura e estudos culturais", umas das quatro que farei nesse primeiro semestre (lembrando que o ano acadêmico no hemisfério norte não coincide com o ano civil), é levar-nos a uma reflexão sobre o desenvolvimento dos estudos culturais em determinada cultura. No caso, a inglesa, porque é a área de interesse da professora, inglesa.

A nossa primeira leitura obrigatória foi "Cultura e Anarquia", de Matthew Arnold, pai dos estudos culturais na Inglaterra. O ensaio de Arnold exorta os homens a procurarem a perfeição, por meio da cultura, que é o resultado da doçura e da luz, doçura, beleza, luz, inteligência. Para Arnold, essa é a vocação maior do ser humano, independentemente de sua classe (baixa, média ou alta, classes bem determinadas e estanques), e qualquer outro tipo de prática social e política que não considere esse ideal máximo de iluminação nos levaria a um estado de anarquia e obscuridade.

A segunda leitura foi "Ficção e o público leitor", em que Quenny Leavis faz um estudo detalhado sobre o fenômeno dos best-sellers no início do século XX. É uma tese de doutorado, cujo argumento principal é o de que o aumento "descontrolado" do letramento na sociedade inglesa levou a uma deterioração da qualidade do gosto popular. Se nos séculos XVI, XVII, e até meados do século XVIII não havia tantos leitores, pelo menos o que se lia era de qualidade: difícil, elaborado, com um bom vocabulário: Shakespeare. Ao contrário do que se vendia em profusão na atualidade dela, livros de fácil digestão, que retratavam personagens vulgares - tão vulgares como o público ao qual se destinavam. Basicamente, ela classifica como de "baixa cultura" tudo o que depois Ian Watt identificou como o gênero mais amado até os nossos dias: o romance.
Vocês podem imaginar o sofrimento que foi para os alunos do doutorado em literatura e cultura, que têm entre suas pesquisas principalmente a valorização das vozes de quem foi sempre tachado como "subalterno", que tentam enxergar o mundo sob uma ótica mais igualitária e justa, ler esse tipo de texto preconceituoso e elitista. O sofrimento virou revolta no debate em sala de aula, claro. Mas a proposta era lermos como de cabeça aberta, procurando validar os argumentos apresentados, afinal, eram textos que foram fruto de muita reflexão.

E então percebemos que, ainda que para nós cada linha pareça absurda e ofensiva, ainda hoje não seria - não é - difícil encontrar quem não veja problema algum nesse tipo de argumento, o de que há uma elite culta que deve selecionar o que é bom e o que é ruim, baseando-se em critérios estéticos imparciais e universais, e recomendar fortemente o que for considerado bom para a maioria inculta, para que dessa forma todos possam um dia, lentamente, atingir um estado elevado de cultura. 

Para Arnold, o padrão de beleza e bondade eram os ideais clássicos. Para Leavis, o drama elizabetano: Shakespeare (leiam shakespeare ou não leiam nada!). Ambos estavam seriamente preocupados em estabelecer padrões mínimos de qualidade, e não deixar que as massas estivessem sempre alienadas pelas coisas de má qualidade que eram vendidas sob boas propagandas. Que mal há nisso, não é mesmo? Quem de nós não quer que as pessoas parem de assistir big brother e comecem a ler Machado de Assis?
(a Leavis não quereria, Machado é romancista, e romance é coisa de gente preguiçosa)

Bom, ainda que esteja cheio de boas intenções, como o inferno, esse tipo de discurso não leva em consideração uma coisa um tanto quanto importante para nós, que defendemos um modelo humanista de educação: a autonomia de cada pessoa. Sim, por que quem vai definir o que é "bom"? o que é essencialmente de "qualidade"? Que poder é esse que a elite econômica e intelectual se arroga de determinar o que presta e o que não presta? Baseada em quê? Tradição? Como se essa própria tradição fosse algo imutável, indiscutível, estanque. Houve tempos em que os clássicos não serviam mais como modelo de perfeição. E depois eles voltaram, e depois foram embora, e depois voltaram de novo. E o romance? O que hoje é considerado erudição, ontem era folhetim de quinta, feito pra vender jornal. E amanhã, quem garante que o nosso must-to-hate Paulo Coelho não será o baluarte da grande literatura brasileira?
Além disso, que valor pretensamente universal de qualidade é esse que vai dizer que o que é bom para a sociedade aristocrata inglesa é bom também pra mim, brasileira, mulher, negra, "pós-colonial", enfim, criada em numa realidade prática totalmente diversa, heterogênea, desigual? 

Um pensamento que se proponha considerar todas as pessoas como iguais em direitos e capacidades, não pode admitir que algumas delas são mais capazes de discernir o que é bom e o que é ruim do que outras. É óbvio que não estou defendendo de forma nenhuma as gerações atuais parem de educar as gerações seguintes - eu sou professora por formação!

O que estou dizendo é que "educação" pode significar várias coisas. Pode ser instrumento de dominação ou de liberdade. Depende do tipo de regime que o impõe. Se, num contexto micro, os pais educam seus filhos para que continuem a obedecer o que os pais acham correto, verdadeiro, sublime, importante, e não se deixem corromper por interferências externas, o que esperar de um regime político governamental que quer evitar todo e qualquer tipo de rebelião, contradição, desordem, insurreição?

Pois é, não é tão simples assim. Não é questão de ponto de vista: esses autores não só estavam defendendo seus próprios gostos: pelo contrário, trata-se ali de defender o que é, por excelência, bom, não é um gosto pessoal, "por acaso", eu gosto do que é bom, e você, pobre coitado, não. "Por acaso", eu, letrado, educado em boas escolas, intelectual, erudito, classe média alta ou rico, sei o que é bom, e você, ralé, não. Mas não se preocupe: sou tão legal e gente boa e desprendido que posso até te ensinar. Você só vai ter que renegar tudo o que você experienciou como válido e bom até agora e começar comigo do zero. Me agradeça depois.

Essa aparente "neutralidade" é que é o problema. Porque ela não existe, é falsa. Os nossos gostos são condicionados por milhões de influências e contatos, que por sua vez são resultados de relações de poder. Nós, intelectuais, não podemos negar a qualquer pessoa, sim, qualquer pessoa o seu direito ao pensamento autônomo, ou melhor, não podemos deixar de reconhecer em qualquer pessoa a sua capacidade potencial de desenvolver um pensamento autônomo. Se tem que haver educação, e é claro que tem, ela deve ser baseada em princípios de liberdade, de escolhas: a educação formal deve oferecer ferramentas de desenvolvimento e refinamento do pensamento, e não respostas prontas e inquestionáveis.

Por isso, não faz sentido falar de cultura em nível qualitativo. Existem culturas diferentes, que se constituem como conhecimento compartilhado, que podem originar comportamentos positivos ou negativos sob certos aspectos. Isso vai  sempre depender dos critérios de avaliação que estão sendo adotados, e estes devem ser expostos como parciais - porque o são - e devem identificar a sua filiação ideológica de maneira clara e honesta (sonhar não custa, né?).

Enquanto esse surto de honestidade não acontece, cabe a nós, pensadores da cultura do século XXI, dar a conhecer o que está por trás desse desejo benevolente, no caso, inglês do fim do séc XIX, começo do XX, de ter, um dia, com ordem e hierarquia, e com as pessoas "certas" no comando, uma sociedade iluminada e culta. Preconceito, ignorância, presunção, arrogância e, mais importante, um profundo apego ao status quo de centro pensante do mundo, são algumas das idéias perigosas e autoritárias que enformam esse tipo de discurso, e que, de maneira preocupante, sobrevivem até hoje. Temos muito trabalho pela frente.

4 de novembro de 2013

Resenha Livre


Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.

Almada Negreiros escreveu isso no início do século XX. E nós, do século XXI, o que fazemos com as palavras, já inventadas e reinventadas?

Uma resenha é um comentário sobre uma outra coisa ou assunto ou produto ou obra. Ela depende de uma "primeira coisa" pra existir.  A resenha livre, que é a proposta desse blog, é livre em dois sentidos: tanto quanto ao seu objeto: filmes, livros, esportes, objetos, acontecimentos e eventos públicos em geral, quanto à sua forma: crítica, comentário, opinião. Nesse novo blog vou concentrar os textos que falam sobre outros textos - entendendo nesse segundo "texto" qualquer coisa  ou situação que seja passível de ser comentada, analisada, indicada, questionada por um olhar externo.

É usar a palavra pra entender a palavra.

Os meus textos mais pessoais e estetizados - depoimentos, relatos, crônicas - continuam no Sumo da Laranja.

A arte do blog é da Marília Ferreira.

Bruna