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8 de abril de 2014

Ninfomaníaca Vols. I e II (filmes)

Assisti Ninfomaníaca - que é um filme dividido em duas partes - e recomendo que todas as mulheres façam o mesmo. As nossas reações ao filme dizem mais sobre nós mesmas - nossos preconceitos, medos, memórias, inibições e desejos - do que sobre uma a "qualidade" do filme em si.

Sobre a qualidade do filme em si, quis ler algumas críticas antes de escrever a minha resenha, e percebi que é algo comum fazer uma crítica sem se esforçar minimamente para assistir o filme de verdade. O que vi em muitas críticas foi uma tentativa forçada de encaixar o "personagem", o "mito" Lars Von Trier, como toda a aura de "polêmica" e megalomania que o envolve dentro do filme. Há um afã por desvendar sinais ocultos, metáforas mirabolantes, choques e subversões, sem que haja a humildade do "espectador comum". O crítico que não é um espectador comum - em qualquer arte - pode até ter muita imaginação e erudição, mas sempre vai perder uma parte importante da obra que analisa: aquilo que é óbvio.

Críticos assim se parecem muito com Seligman. Seligman é o cara que encontra Joe caída na rua, e pra quem ela conta a sua história. Ele escuta com um interesse puramente intelectual: o que ele admira em Joe não é a história dela, ou o sofrimento humano e real da sua existência angustiada, e sim a sua capacidade de story-teller. Seligman fica envaidecido por ajudar a "clarificar" a história de Joe com as suas referências eruditas, com seu vasto conhecimento em diversos campos, adquirido por meio de leituras eternas e solitárias. Joe entra no jogo, alimentando ainda mais a vaidade do seu interlocutor, usando os elementos da casa dele para nomear os capítulos da sua história. Sabemos que é um jogo - do qual Joe participa voluntariamente também - quando ela debocha do comentário dele sobre os alpinista que inventou um nó - só alguém totalmente alheio a qualquer tipo de paixão humana poderia se lembrar disso enquanto uma mulher conta sua dramática busca pela recuperação do prazer.

As referências de Seligman são, assim, casuais e aleatórias, e não possuem qualquer ligação intrínseca com a história - como acontece quando esse recurso é usado com um objetivo artístico na "contação" da história. A história de Joe não é sobre pesca, sobre uma pistola ou sobre o sofrimento no cristianismo ocidental - por mais que Seligman ou qualquer crítico queira forçar a imposição dessas e de outras imagens - a história de Joe é uma só: a da inesperada descoberta de, e conflituosa convivência com a sua sexualidade - uma sexualidade feminina.

Von Trier teve que exagerá-la para ter a liberdade da aberração. O desafio de retratar uma mulher que se enquadrasse em padrões de normalidade (se é que ela existe) teria sido maior, e provavelmente ele teria falhado. A ninfomaníaca deu a ele liberdade de criação e de experimentar situações-limite: o orgasmo espontâneo na infância, o sexo casual como prática diária, a frigidez repentina, o conflito entre a busca pelo prazer o instinto de proteção da cria, o fetiche com os negões que não falavam inglês, o sadomasoquismo, a utilização criminosa da sexualidade.

Atingindo vários limites, o diretor passa pelas nuances, entre as quais cada mulher que assiste o filme se posiciona. Provavelmente mulher alguma se identifique totalmente com Joe, mas o espectro amplo de emoções, culpas, medos, desejos e contradições que ela representa e sente conversa com cada uma de nós, como se estivéssemos falando de sexo pela primeira vez diante de uma interlocutora com quem nos sentimos completamente à vontade. Da mesma forma, o julgamentos que fazemos, bom ou mau, da sua conduta, é baseado na nossa própria experiência. Nesse sentido é que digo que é um filme necessário como "indicador" pessoal dos nossos próprios tabus.

Eis o heroísmo e a resistência de Joe: ela fala. É isso que justifica o recurso de montar o filme em flashback: Von Trier, assim como Seligman e todos nós, conhece Joe caída no chão. Não é o diretor que acompanha a vida dela com a câmera, como um observador onisciente e condescendente - ou inquisidor. É Joe que fala por si, que conta o que quer, como quer, apenas aproveitando os elementos da casa de Seligman - o espelho, a isca, a marca de chá no chão - para emoldurar a sua história. É Joe que guia a câmera, não Seligman. E é este ato - o de contar, o de ter de se confrontar com a história da sua vida em algumas horas - que faz com que ela redefina sua própria identidade para si mesma. É a primeira vez que Joe faz isso, depois de anos de solidão, marginalidade e uma resistência confusa a padrões de comportamento sexuais rotulados de normais.
Antes mesmo de Seligman fazer seu discurso feminista - que serve mais pro expectador - Joe já entendeu, já se entendeu, já mudou o discurso tantas vezes repetido na primeira parte do filme de "eu sou um ser-humano ruim" para a posição firme e corajosa de "eu sou mais que isso, eu vou sobreviver a isso, minha sexualidade não me define como pessoa". Seligman faz então seu discurso feminista - puramente politicamente correto e, por isso, teórico e condescendente - e Joe vai dormir achando que encontrou um amigo e feliz por ter se encontrado.

E aqui Lars Von Trier mostra, afinal, que essa não é uma história sobre amizade, é uma história sobre luta - da luta de uma mulher contra sua própria solidão, contra e a favor do próprio corpo, contra a falta de compreensão e respeito que vem de todos os lados. 

Seligman, tão casto ele, afinal, tinha paixão, e muita: estava toda ela direcionada para a sua querida literatura, fonte da sua erudição. Ao ligar sua própria história - humana, não apenas erótica - à literatura do novo amigo, Joe se torna para ele uma extensão dessa paixão, desse fetiche - para ele, ela se apresenta como um corpo para uma paixão que até agora foi teórica e casta. E é assim que esse cara, ao ter desejo sexual pela primeira vez na vida no meio da noite pensa HUM, POR QUE NÃO DISPOR À VONTADE DO CORPO DESSA MULHER FRAGILIZADA QUE EU ACABEI DE AJUDAR? AFINAL, SOMOS AMIGOS! QUE DIFERENÇA FAZ ESSE NÃO MURMURADO NO MEIO DA NOITE? 


But you... you've fucked thousands of men.


(isso é estupro, amigos)


O tiro dela é um tiro nos falsos discursos masculinos emancipatórios e condescendentes, é um tiro no "cara legal" que acha que sexo é moeda de troca da amiga para a atenção dele, um tiro em toda a dissimulação politicamente correta que diz "ok, ok, não tou te julgando, te entendo, mas... aproveitando que você já tá perdida mesmo, vem cá... " Durante toda a história de Joe, uma coisa existe em comum: a sua vontade, a sua decisão, a sua escolha sobre o que fazer e o que fazer com o próprio corpo. O estupro seria a sua verdadeira degradação.

A sobrevivência de Joe a Seligman é a sobrevivência da ação - da experimentação, da tentativa corajosa - sobre o discurso fácil, vazio e prepotente, e é isso que vai fazer com que esse filme ainda seja lembrado e necessário quando todo o frenesi com a parte "erótica" passar.

18 de janeiro de 2014

12 homens e uma sentença (filmes)

Como uma das resoluções de ano-novo tenho o propósito de assistir um filme por dia em 2014 - como agora tenho tempo de sobra, não tenho desculpa pra não assistir, finalmente, aqueles filmes que eu sempre digo que já vi dez vezes quando quero parecer cult.

Sem saber bem como escolher os filmes, resolvi recorrer a uma dessas listas "tantos filmes pra ver antes de morrer". Ainda que a seleção me pareça um pouco arbitrária, é um começo concreto - e evita que minha resolução seja procrastinada.

Spoiler alert: minhas resenhas podem, eventualmente, trazer comentários sobre o fim das histórias, porque acho que ver o que quer que seja tendo como único interesse saber o final é um tanto quanto imaturo e superficial. Já sabemos todos como a história mais importante de todas - a nossa própria - termina, e nem por isso viver se torna menos interessante, né? Então, com filmes e livros é a mesma coisa.

Seguindo, então, essa lista, comecei por assistir* o filme 12 homens e uma sentença (12 Angry Men). A versão canonizada, must see, é a original, de 1957, mas eu, herege que sou, assisti as duas versões e preferi o remake, de 1997.

Como o título no Brasil deixa claro (em Portugal a tradução foi mais [?] fiel: 12 homens em fúria), um júri formado por doze homens tem a tarefa de decidir se um jovem porto-riquenho acusado de ter matado a facadas o próprio pai é culpado ou não. A decisão do júri - composto por representantes da sociedade civil americana aleatoriamente escolhidos - deve ser unânime, e dela não cabe recurso. 

Esses homens são colocados numa sala - praticamente a única locação do filme - onde deverão discutir até chegar a um veredito. Numa votação preliminar, onze votos indicam o réu como culpado, e apenas um considera que não há provas suficientemente irrefutáveis da autoria do crime. 

O júri é, então, obrigado a discutir novamente todas as evidências do caso, até que a unanimidade seja alcançada. E, na hora e meia de discussão que se segue, assisti um texto brilhante sobre racismo, preconceito, intolerância e direitos humanos. 

Sim, digo que assisti um texto porque, nas duas versões, é ele que importa. Sem efeitos especiais e sem locações deslumbrantes, é o texto que faz desses dois filmes imperdíveis. A direção e a atuação importam na medida em que privilegiam o texto - o calor da sala do júri realça a tensão do que está sendo discutido ali - a sentença de morte de um ser humano; os movimentos da câmera privilegiam a melhor compreensão do texto, não há excessos, há apenas a eloquência do texto, a principal estrela nos dois filmes.

Na versão de 57, os representantes da sociedade civil americana são todos homens brancos. Identificados pelo seu número - de 1 a 12, breves diálogos revelam que entre eles  há comerciantes, profissionais liberais, empregados da burocracia, um imigrante naturalizado. O homem que coloca em dúvida, sozinho, a culpa do réu é vivido por Henry Fonda, cujos olhos tristes eu não gosto. Mas não é só por isso que prefiro a versão de 97. Quarenta anos depois da primeira versão, entre os novos doze representantes da sociedade civil americana agora há negros - e colocar um deles no papel do jurado que faz o discurso mais francamente racista e xenófobo de todos foi uma jogada sensacional.
Essa versão, por mais próxima e por atualizar de maneira eficiente os conflitos presentes no primeiro filme, conversa mais comigo, e é por isso que gosto mais dela.

Um a um, os jurados são convencidos, por meio do debate, de que as provas apresentadas no tribunal não são suficientemente definitivas para que o jovem réu seja considerado culpado. Não se trata de julgá-lo positivamente inocente, trata-se de não se poder dizer, com absoluta certeza, que ele é culpado. Pode ser, e pode não ser - e essa dúvida, de acordo com a letra da lei, é suficiente para que ele continue vivo - já que a condenação implicaria sua sentença de morte.

a melhor cena da versão original:
o discurso honestamente xenófobo
 que exige dos outros membros do júri
uma tomada de posição
A exposição dos argumentos que tomam por irrefutável a culpa do jovem revela um discurso assombrosamente preconceituoso e desgraçadamente atual: é culpado porque deve ser culpado, porque nada indica que seja inocente, porque nasceu num cortiço - produtor de bandidos por excelência, porque essa gente é criada pra ser violenta, porque é da natureza deles roubar e matar, porque não se pode esperar nada de diferente desse tipinho. (acho mesmo que li todos esses argumentos ontem, nos comentários de uma notícia qualquer que envolvesse negros ou pobres no Brasil - supondo que não sejam sinônimos). 

O gesto revolucionário do homem que se nega a decidir tão sumariamente a sorte de outro é o de elevar esse outro ao status de um igual - é a empatia de colocar-se no lugar desse outro, de imaginar-se a si mesmo réu, imigrante, pobre, indefeso - e a partir daí dedicar seu tempo e seu esforço a discutir se a culpa presumida pode ser considerada culpa materialmente comprovada.

Esse texto me remeteu imediatamente aos nossos julgamentos públicos e midiáticos, em que a culpa presumida é mais do que suficiente para que alguém tenha a honra manchada, a vida devassada, a privacidade invadida. Nomeadamente, casos como os da menina Isabela Nardoni e do Mensalão me vêm à mente - casos cujo julgamento foi pro-forma, porque a condenação da opinião pública clamava pela execução sumária da reputação dos julgados tão logo os casos tornaram-se conhecidos.

Versão de 97,
minha preferida e a que eu indico
Me pergunto se eu teria a coragem de ser o homem que levanta a dúvida, que respeita o princípio democrático da presumibilidade da inocência de quem quer que seja, correndo o risco de ser eu mesma rotulada como advogada do diabo, como cupincha de criminosos, como cúmplice de crimes hediondos. Quero ter essa coragem, porque sendo eu o réu - e nada me garante que eu nunca venha a sê-lo, gostaria que alguém levantasse essa dúvida por mim.


Se o filme tivesse que ser refilmado hoje, seria impossível não colocar entre os representantes da sociedade civil americana também mulheres - o que daria um novo fôlego pra esse mesmo texto que, encenado há quarenta anos, continua sendo revolucionário, forte e necessário. 

Bom, menos um filme na lista dos que eu sempre digo que vi e nunca tinha visto de verdade! Faltam agora 364 filmes para cumprir a meta do ano. Não vou resenhar todos, porque resenho só as coisas de que gosto. Aceito indicações de mais filmes, e, para o blog, aceito - e quero! - resenhas feitas por vocês, do que quer que seja :)

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* uso o verbo "assistir" como transitivo direto, porque o contexto é suficiente para a perfeita compreensão do sentido do verbo por qualquer falante nativo de português - tenho certeza que não ocorre a ninguém que eu vá "ajudar" o filme, né?